
Orelha não era apenas mais um cão. Ele era um símbolo vivo de afeto coletivo, um cão comunitário que sobreviveu por cerca de 10 anos entre as casinhas improvisadas da Praia Brava, em Florianópolis (SC), sendo alimentado, acarinhado e acolhido por moradores e visitantes da região. Ele representava a conexão que existe entre humanos e animais — um laço invisível, mas visceral — uma prova cotidiana de que o amor pelos não-humanos faz parte do tecido social e comunitário.
Mas, em 4 de janeiro de 2026, esse símbolo de carinho foi transformado em símbolo de horror e impunidade. Um grupo de quatro adolescentes, supostamente filhos de famílias abastadas, decidiu que a vida de Orelha não valia nada. Com instrumentos contundentes, espancaram-no até que suas feridas fossem irreversíveis, deixando-o agonizar até ser encontrado em estado crítico — e posteriormente submetido à eutanásia por um veterinário, num gesto que significou apenas a interrupção de um sofrimento que a crueldade humana começou.
Essa violência não foi um ato isolado de um coração insensível: para além da morte brutal de Orelha, há relatos de que o mesmo grupo tentou afogar outro cão comunitário, conhecido como Caramelo, que só sobreviveu por pouco graças à sua própria agilidade e à intervenção de pessoas solidárias.
O episódio chocou o Brasil e colocou em evidência um problema profundo: como ainda normalizamos, protegemos ou relativizamos a violência contra animais quando os responsáveis têm poder econômico e status social? No lugar de uma resposta firme e imediata da sociedade e do sistema de Justiça, vimos uma sequência de tentativas de escape, incluindo uma viagem dos adolescentes para os Estados Unidos logo após o crime — uma ironia amarga quando se imagina que, enquanto a elite se diverte, um ser senciente morreu sem ter a chance de ser defendido.
A Polícia Civil de Santa Catarina finalmente começou a agir, apreendendo celulares e investigando o caso como crime de maus-tratos com resultado morte. Os responsáveis pelo ato infracional podem ser alvo de medidas socioeducativas, e familiares foram indiciados por tentativa de coagir testemunhas e atrapalhar a investigação — ações que apenas reforçam o quadro de tentativa de blindar privilégios e minimizar a gravidade dos fatos.
Mas até que ponto a lei, o sistema e a moral social estão preparados para lidar com a violência contra animais de forma séria? Orelha não tinha um “tutor legal” único, mas tinha uma comunidade inteira que o amava — e mesmo assim foi descartado, espancado, torturado e morto como se sua vida não tivesse valor. Quando reafirmamos que todos os animais são sujeitos de uma vida própria, não estamos falando de abstrações: estamos falando de seres que sentem, que sofrem e que muitos humanos tratam como descartáveis. É exatamente esse tipo de violência brutal que evidencia como ainda precisamos lutar — com mais intensidade — contra o especismo, contra a naturalização da violência, contra qualquer estrutura que permita que seres inocentes sejam mortos por prazer ou falta de empatia.
O caso de Orelha deve ser um ponto de inflexão. Não apenas um ato isolado de horror que desaparece nos noticiários, mas um chamado para questionarmos todas as formas de exploração, todos os privilégios que blindam a violência, e todos os sistemas que nos ensinam a ver vidas não-humanas como menos importantes. Que a comoção que surgiu nas redes sociais, nas manifestações e nos protestos se traduza em ações concretas, em leis mais rígidas, em uma educação ética que comece na infância e em uma sociedade que respeite verdadeiramente a vida em todas as suas formas.Orelha viveu como parte de uma comunidade — que agora deve honrar sua memória transformando a indignação em mudança.


